domingo, 12 de junho de 2011

Um Ser de Palavras

O  que pode fazer cada um de nós  sem transformar  nossa inquietude em uma história? Acaso contamos  com outra coisa a não ser com os restos desordenados das histórias recebidas? É possível que não sejamos mais que uma imperiosa necessidades de palavras, pronunciadas ou escritas, ouvidas ou lidas, para cauterizar a ferida. Cada um tem a sua lista: céu, amor, progresso, revolução, ciência, consciência, verdade, vingança, cultura, responsabilidade, saída, nada, alma, eternidade, eu.... Cada um dispõe, também, de uma série de tramas nas quais as entrelaças  de um modo mais ou menos coerente. Cada um tenta dar sentido a si mesmo, construindo-se como um ser de palavras a partir das palavras e dos vínculos narrativos que recebeu. Os homens  não se conhecem a si mesmos, se enganam a si mesmos, não são o que dizem que são e o que creem que são. O eu  está feito de palavras, ou dito de outra forma, a linguagem é condição necessária do eu, e não somente expressão, meio, instrumento ou veículo de um hipotético eu substancial: o eu não é o que existe por trás da linguagem, mas o que existe na linguagem. Professor é chegada a hora de se perguntar: que sou eu? Palavras? Que palavras? Na leitura e na escrita,  o eu não deixa de se fazer, de se desfazer e de se refazer. O ser humano é apenas um conjunto de palavras  para compor, decompor e recompor. O embate  das palavras ainda não ditas contra as palavras já ditas permite a ruptura do horizonte dado, permite que o sujeito se invente de outra maneira, que o eu seja outro. A fidelidade às palavras é não deixar que as palavras se solidifiquem  e nos solidifiquem, é manter aberto o espaço líquido da metamorfose.
O  homem se faz ao se desfazer: não há mais do que risco, o desconhecido que volta a começar. O homem se diz ao se desdizer: no gesto de apagar o que acaba de ser dito, para que a página continue em branco.    (Larrosa, Pedagogia Profana)